Por Andy Seale
Hoje, as pessoas que vivem com HIV podem esperar viver tanto quanto as demais, graças ao tratamento. Ainda assim, adquirir o HIV pode mudar a forma como você pensa sobre a morte — e sobre a vida.
Muitas pessoas que contraíram o HIV nas décadas de 1980 e 1990, antes dos tratamentos eficazes, morreram jovens. Milhões de pessoas. Algumas, como eu, tiveram sorte e ainda estão aqui. Lamentavelmente, ainda ocorrem mais de 500 mil mortes anuais por AIDS, pois cerca de um quarto das pessoas vivendo com HIV não têm acesso ao tratamento ou à supressão viral adequada.
O estigma e a discriminação em torno do HIV/AIDS, parcialmente ligados ao medo da morte, impedem muitas pessoas de viverem abertamente com seu diagnóstico. Algumas optam por não contar nem aos familiares mais próximos e recorrem a outras pessoas para obter apoio no planejamento do fim da vida. Outras podem ter sido rejeitadas por suas famílias e comunidades — as mesmas que normalmente administrariam os rituais associados ao fim da vida e à morte.
O HIV traz desafios, mas também oportunidades. Tive a sorte de trabalhar com pessoas vivendo com HIV de todas as origens. Muitas vivem intensamente, com alegria, humor e humildade. Suspeito que, para muitas, o HIV trouxe perspectiva e um senso claro de mortalidade, o que faz com que cada novo dia seja recebido e vivido como um presente. O HIV também pode oferecer uma oportunidade de questionar e explorar normas sociais e religiosas relacionadas tanto à vida quanto à morte. Para alguns, isso representa uma oportunidade importante e poderosa de reavaliar a vida e focar nas ações, coisas e pessoas que realmente importam.
Para muitos ativistas e líderes comunitários vivendo com HIV, no fim de suas vidas, são as famílias escolhidas que se reúnem para celebrar. Normalmente, quem está presente não deseja que a pessoa falecida “descanse em paz”, mas sim que descanse em poder.
O HIV pode ser empoderador e afirmativo para muitos que entram em contato com ele — seja como pessoas que vivem com o vírus ou como aquelas que se aproximam de quem vive com HIV.
Se você tiver a sorte de ter pessoas que desejam que você descanse em poder, independentemente do seu status sorológico, isso é sinal de que você viveu plenamente e fez a diferença.
